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“Quando me descobri negra”: sete mulheres conscientes e com muito orgulho

“Tenho 30 anos, mas sou negra há apenas dez. Antes, era morena”

Escrito por: Flávia Martinelli no Blog Mulherias

“Minha cor era praticamente travessura do sol. Era morena para as professoras do colégio católico, para os coleguinhas – que talvez não tomassem tanto sol – e para toda a família que nunca gostou do assunto. ‘Mas a vó não é descendente de escravos?’, eu insistia em perguntar. ‘E de índio e português também’, era o máximo que respondiam. Eu até achava bonito ser tão brasileira. Talvez por isso aceitasse o fim da conversa.” Assim começa o livro de Bianca, “Quando me descobri negra”.

Ela conta que só em 2004, quando se voluntariou a dar aulas no cursinho “Educafro”, se deu conta que era negra. “Ouvi que, como a maioria dos professores eram brancos, eu seria uma boa referência para os estudantes negros. Eles veriam em mim, estudante da Universidade de São Paulo e da Faculdade Cásper Líbero, que há espaço para o negro em boas faculdades.”

Bianca saiu da entrevista sem entender direito o que tinha ouvido. Mas o assunto não saiu de sua cabeça. “Pensei muito e por muito tempo. Não identifiquei nada de africano nos costumes da minha família. Conclui que a ascensão social tinha clareado nossa identidade. Óbvio que somos negros.Se nossa pele não é tão escura, nossos traços e cabelos revelam nossa etnia. Minha mãe, economista, funcionária de uma grande empresa, foi branqueada como os mulatos que no século XIX passavam pó de arroz no rosto porque os clubes não aceitavam negros. Eu fui branqueada em casa, na escola, no cursinho e na universidade.”

Bianca conta que segue em busca de sua identidade e agradece ao professor do Educafro que, pela primeira vez em 21 anos, fez o convite para a reflexão profunda sobre suas origens.


“Me entendi, ao longo da vida, como a mulher negra que ninguém vai escolher”
Nene Surreal, 50 anos, grafiteira desde 1996

“Eu só me entendo mulher quando me entendo como a mulher negra que ninguém vai escolher”, diz a grafiteira, pioneira na arte de rua em São Paulo. Nene Surreal traz consigo um histórico de discriminações. Sempre sentiu os olhares de reprovação das mulheres e mesmo da família de seu primeiro companheiro, “lindo mas moreno do cabelo bom que não se reconhecia negro”. Ela conta que depois da morte do parceiro teve poucos namorados. “Um deles se dizia apaixonado mas só me namorada no lugar que se chamava ‘Morrinho do Amor’. Ele me levava lá e falava que não era legal aparecer comigo de mão dada. E assim me percebi mulher negra. E foi doloroso”. Neste vídeo, abaixo, ela fala ainda sobre o que já aceitou em nome de relacionamentos abusivos e afirma que se orgulha, hoje, aos 50 anos, de ser quem é: mulher; e mulher preta: e mulher preta gorda: e mulher preta gorda e sapatão. “É muito louco ver que até hoje estou brigando com a sociedade para amar.”


“Minha família reforçava o discurso de branqueamento: ‘seu cabelo já é ruim então case-se com um branco pra limpar a raça”
Daniela Gomes, 35 anos, doutoranda em estudos e diáspora africanos na Universidade de Texas

“Eu tinha 12 anos. Um dia, eu estava na sexta série e ouvi a música Fim de Semana no Parque, do Racionais Mcs. Venho de uma família de negros de pele clara. Tenho pessoas de pele escura na família, mas os negros eram eles, os outros, nunca a gente. É uma característica do racismo brasileiro. Quanto mais escuro o tom de pele, mais a identificação com a negritude. Quando você é um negro de pele clara no Brasil, o racismo te permite ser qualquer outra coisa. Você não é branco, mas você é qualquer outra coisa menos negro.

Minha família não falava sobre negritude mas a gente sofria racismo. Eu era discriminada pelos traços, pelo meu cabelo e todas as características que falavam dessa negritude. Ainda criança, eu não sabia que era racismo quando diziam que meu cabelo era de Bombril, que meu cabelo era um fuá, que queriam pôr for fogo no meu cabelo para ver se fazia estrelinha ou que meu nariz era muito grande e a boca muito larga…

Então escutei essa música e me identifiquei. Foi um ponto de choque. Tem um ativista negro chamado Carlos Eduardo Oliveira que ele diz que no Brasil a gente “afrosurta” pois muitos de nós não se dão conta da negritude até um determinado ponto da vida, quando você acorda e pensa: ‘ei, isso está acontecendo porque eu sou preta”.

Eu me sentia feia, ridícula, fora do padrão, desengonçada, mas não conseguia entender que todas essas ofensas me eram dirigidas porque eu era negra. E na minha família reforçava o discurso de branqueamento: ‘seu cabelo já é ruim, você precisa casar com uma pessoa branca pra limpar a raça”. É um discurso que vem do século 19 com as teorias de branqueamento e a imigração europeia: miscigenação para limpar o Brasil. Negros de pele clara, que não têm o fenótipo que os aponta como negros, ainda assim são apontados. É um limbo que a gente vive, você é discriminado sem saber. A partir do momento em que eu me entendi como negra, consegui dar nome aos bois. Um exemplo: a professora na quinta série, quando me viu de cabelo alisado, falou: ‘nossa, você finalmente ficou linda’. São coisas extremamente agressivas e as pessoas nem se dão conta que é racismo. Mas é. Com o perdão da metáfora, costumo dizer é: o racismo é como um prato de cocô. Nos EUA, eles pegam o prato de cocô e vão fazer você comer como ele tiver. No Brasil, eles fazem bolinhas, passam granulado e fazem você comer como se fosse brigadeiro. Nos dois jeitos você tá comendo merda.”

Trecho da música Domingo no Parque, do Racionais MCs, selecionada por Daniela. “Eu tomei consciência de que essa minha condição”

“Olha só aquele clube que dá hora

Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora

Nem se lembra do dinheiro que tem que levar

Do seu pai bem louco gritando dentro do bar

Nem se lembra de ontem, de hoje e o futuro

Ele apenas sonha através do muro”


“Na faculdade, na primeira aula, uma professora falou que se fosse eu, seria passista de escola de samba”
Ketty Valencio, 41 anos, bibliotecária e livreira

“A minha família vêm do interior de SP. Meu avô, pedreiro, veio pra cá na década de 70 e era um grande contador de histórias. Por isso eu sempre soube que era negra, por causa dessa tradição oral forte. A gente sabia dos que vieram antes de nós. A minha construção social, pessoal, identitária veio a partir disso. Foi um privilégio. Mas isso não evitou o embate quando conheci ambiente externos. Na escola descobri o peso de ser enxergada pela ótica de uma sociedade racista, tive contato com o opressor. Antes disso, quando eu ficava em casa, não tinha essa noção. O tempo passou e esse embate pouco mudou. Já na faculdade, na primeira aula, uma professora falou que, se ela fosse eu, ela seria passista de escola de samba.

É importante saber quem nós somos, porque as pessoas – a grande maioria – nos inventam. E a partir do olhar do opressor. Digo que negros são inventados porque as pessoas acham que precisamos fazer certas coisas. Quando a gente quebra essa lógica do opressor, as pessoas não sabem lidar. E questionam. Se você não está preparado para esse tipo de questionamento você desiste, morre, fica depressiva. É importante que nos fortalecemos e reforçar que podemos fazer o que quisermos. Eu escolhi literatura, porque literatura salva e permite que a gente conte nossas próprias histórias.”


“Diziam que minha mãe era uma mulher muito bonita pra ter uma filha como eu”
Luana Hansen, 35 anos, rapper feminista, DJ, MC e produtora musical

Foi na infância que a rapper se reconheceu negra. Filha mais velha, entre seis irmãos, Luana lembra que ao saber que sua mãe, branca e de sobrenome alemão, iria numa festinha de fim de ano no colégio, já foi avisando a galera: “ela é loira que nem a Xuxa”. Primeiro, achavam que era mentira. Depois, a piada era dizer que Luana tinha sido adotada, achada no lixo. “Diziam que ela era uma mulher muito bonita pra ter uma filha como eu. E entendi de verdade o quanto eu era diferente do resto da minha família. E o quanto a sociedade deixava bem claro que eu não era pertencente àquele espaço”. Assista o depoimento no vídeo:


“Eu era a única criança negra no clube. Sorri para uma mulher loira na espreguiçadeira e ela não correspondeu”
Katia Passos, 36 anos, jornalista

“Sou filha de mãe indígena e pai negro, então lá em casa, desde criança, sempre soube o que era racismo.

Nas famílias tradicionalmente católicas, como era a minha isso é pior, eu acho. Se não tem religião de matriz africana envolvida na sistemática, a frequência em ‘espaços brancos’ é maior. Então eu tinha padrinhos (aqueles do batismo) brancos e pertencentes à classe média paulistana.

Na infância, ao menos uma vez por mês, eles me levavam para um clube e eu era a única criança negra naquela piscina de elite em Pinheiros. Embora eu fosse uma menina negra de pele mais clara e cabelo liso, eu sentia os olhares das famílias amigas dos meus padrinhos.

Lembro de estar brincando na beira da piscina e uma mulher loira, alta, deitada numa espreguiçadeira, me olhava. Eu sorri para ela, mas não fui correspondida. Minha madrinha viu, me chamou, abraçou. Elas se conheciam. A mulher pareceu constrangida e foi cumprimenta-la. A partir desse dia, passei a ter os sorrisos correspondidos. Pura hipocrisia.

Minha madrinha, uma querida, branca, da classe média, sempre lutou contra o racismo junto com meus pais. Depois de alguns anos, chorei quando lembrei desse episódio. Acho que foi por volta dos 12 anos. Entendo que aí tomei consciência real da minha negritude.”


“Depois de me elogiar sem parar, a selecionadora do emprego disse: ‘infelizmente seu cabelo não condiz com a nossa empresa’. Fiquei sem chão”
Sirlene Araújo Dias, 32 anos, professora de educação infantil e ensino fundamental

“Eu tinha 21 anos e fui concorrer a uma vaga de emprego. O processo seletivo era enorme: uma semana de provas e entrevistas num escritório na Avenida Paulista. Tudo isso para um cargo em telemarketing. A vaga exigia só o ensino médio, não pagava muito mais que a base, mas eu precisava daquele trabalho.

Já tinha experiência na área e estava no primeiro ano da faculdade, na Universidade de São Paulo, e conforme fui passando nas fases, fui ficando mais confiante. Ao final, só tive uma única concorrente, a quem me afeiçoei muito. Ela, uma mulher de 40 anos muito batalhadora mas sem experiência na área, chegou a me dar os parabéns adiantado.

Importante lembrar que todos os dias de entrevista eu fui arrumada, de roupa social e prendia o meu cabelo porque achava que combinava mais. Usei coque, trança e rabo-de-cavalo. Nessa época, eu já havia assumido meus cachos, que são soltos, depois de uma vida de alisamentos. Mas nem pensei em racismo.

Então, chegou aquele momento fatídico em que a recrutadora de Recursos Humanos entra na sala. Ela, uma oriental, magrinha, dentro do padrão estético das empresas, me olhou, bem séria, e falou: ‘Sirlene, seu desempenho foi ótimo’. Sorrindo eu pensava: ‘meu deus, obrigada, consegui o emprego’. Cheguei a ficar constrangida porque a examinadora me elogiava sem parar na frente da minha concorrente. Até que ela diz: ‘mas, infelizmente, o seu cabelo não condiz com a nossa empresa’.

Fiquei sem chão. O que estava em jogo era a manutenção da minha vida. Eu morava sozinha, pagava aluguel, tinha acabado de perder o emprego, estava na faculdade, não contava com o apoio de ninguém e mandava dinheiro para a casa dos meus pais… Me senti humilhada, meus olhos encheram d’água e eu fiquei segurando para não chorar na frente dela.

Sabia que aquilo era racismo mas não consegui dizer nada – o que não tem a ver com meu histórico, aliás! Só peguei minhas coisa e saí. Voltei para casa chorando, arrasada. Não superei. E mudei. Esse episódio me mostrou que mesmo eu não tendo consciência de que era negra para a sociedade eu também não era branca.

Tenho pele clara. Eu me reconheço como parda quando tenho que assinar burocracias de governo, como o IBGE, e sei que uma parte do movimento negro não concorda que afrodescendentes de pele clara se autodenominem negros. Entendo as razões. De fato, no Brasil o preconceito que recai sobre mim é diferente do que recai em negros retintos.

Ainda assim, eu, que demorei para me reconhecer, não me sinto aceita por nenhum grupo. E por isso eu me identifico como parda entendendo que pardos também são negros.

Já acessei vários discursos que dizem que quem é pardo, e portanto negro, deve se manifestar negro. Mas é confuso. Só sei que branca eu não sou. E sei meu cabelo me tirou um emprego para o qual eu estava muito preparada. Me assumi uma mulher negra mas uma mulher negra da pele clara. São muitas interfaces. O Brasil é muito louco por fazer essa gradação.”

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